27 de maio de 2024

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Pesquisas no transporte

Faltam pesquisas no mundo para incentivar o setor de transporte rodoviário de carga a cumprir metas sustentáveis da ONU. Artigo escrito por pesquisadores da USP foi publicado em revista internacional focada em desenvolvimento sustentável.

Pesquisas voltadas ao setor de transporte rodoviário de carga produzidas no mundo entre 2015 e 2020 não se preocuparam com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). É o que aponta o artigo Road freight transport literature and the achievements of the sustainable development goals — a systematic review (ou, em livre tradução, Bibliografia de transporte rodoviário de mercadorias e o alcance das metas dos objetivos do desenvolvimento sustentável — uma revisão sistemática).

Fruto de dois anos de pesquisa, o artigo começou a ser realizado dentro do projeto Inventário brasileiro de gases de efeito estufa e cenários para a redução das emissões relacionadas ao gás natural, do Research Centre for Greenhouse Gas Innovation (RCGI), centro de pesquisa financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pela Shell.

O texto foi publicado recentemente na revista acadêmica Sustainability em open access, graças ao apoio do Programa de Excelência Acadêmica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Proex-Capes), por meio do Programa de Pós-Graduação em Energia do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE-USP).

Os ODS foram propostos em 2015, durante a Cúpula de Desenvolvimento Sustentável da ONU, realizada em Nova York (EUA). A ideia é que o conjunto de 17 objetivos voltados para a proteção do planeta seja implementado até 2030 por todos os países que integram a ONU, inclusive o Brasil. Entre as metas estão trabalho digno e crescimento econômico (ODS 8), consumo e produção responsáveis (ODS 12), além de infraestrutura resiliente, indústria inclusiva e sustentável, e fomento à inovação (ODS 9).

“Nosso foco foi investigar se a bibliografia voltada para esse setor, que demanda muitos recursos naturais e emite muitos poluentes, estava atenta aos objetivos do desenvolvimento sustentável. Isso porque se os países quiserem de fato atingir essas metas em 2030, a literatura especializada precisaria estar falando dessa temática para contribuir, por exemplo, com a implantação de políticas públicas”, diz Flávia Mendes de Almeida Collaço, principal autora do artigo e pós-doutoranda do Centro de Síntese Cidades Globais do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP).

 Levantar essa bibliografia foi um grande desafio para os pesquisadores, que utilizaram dois grandes bancos de dados internacionais voltados à comunidade acadêmica: Scopus e Web of Science. “Em uma primeira busca, percebemos que nenhum texto do período contemplado por nossa pesquisa fazia referência direta ao termo ‘ODS'”, relata Collaço. A pesquisadora admite que essa ausência talvez se deva exatamente ao recorte temporal do estudo. “Dificilmente o termo apareceria em artigos publicados em 2015, quando os ODS foram estabelecidos. Entretanto, ele poderia estar presente em artigos publicados a partir de 2017”, pontua Collaço.

“Porém, isso não acontece nem mesmo em trabalhos que saíram em 2020. É difícil acreditar que as metas serão cumpridas em 2030 se a literatura científica não estiver falando a respeito dessa temática”, constata a pesquisadora.

Em função da ausência do termo nos artigos disponíveis nos dois bancos de dados, os pesquisadores resolveram dividir as 140 metas dos 17 ODS em duas categorias: ‘ideais’ e ‘instrumentos’. “O ODS 7, por exemplo, é aquele que busca garantir o acesso à energia limpa de forma universal, confiável e a preços acesssíveis. No trabalho, essa premissa virou um ‘ideal’, que foi então dividido em algumas palavras-chaves. O mesmo procedimento foi realizado em relação ao quesito ‘instrumentos’, que busca mostrar de que forma esses ‘ideais’ poderiam ser utilizados”, conta Thiago Brito, pós-doutorando na área de energia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), que também assina o trabalho.

 Por meio dessa série de palavras-chaves elencadas pelos pesquisadores, uma linguagem de programação identificou inicialmente 1.540 artigos. Depois, com uma nova leva de filtros, esse número caiu para 301 textos. “Na sequência, nossa equipe leu esses 301 trabalhos. Foi uma medida crucial porque a linguagem de programação é capaz de identificar artigos através das palavras-chaves, mas não consegue apontar se a palavra ‘energia’, por exemplo, que aparece em determinado texto tem a ver com os ODS”, prossegue Collaço.

Por fim, os pesquisadores chegaram ao número final de 86 artigos, que foram então escrutinados e renderam uma revisão sistemática da bibliografia internacional voltada às questões investigadas pelo estudo. Dentre os textos analisados, todos apresentaram alguma relação com o ODS 7, aquele que trata do acesso à energia limpa.

“A maioria dos trabalhos (56 deles) faz uma análise econômica da mudança de combustivel no setor de transporte de carga, em geral de origem fóssil para fontes renováveis”, diz Collaço. “Entretanto, esses artigos não fazem conexões com outros ODS, como o 12, por exemplo, que versa sobre produção e consumo responsáveis. Um dos instrumentos desse quesito, inclusive, fala de políticas de subsídio para racionalizar o uso de combustíveis ineficientes ou fósseis. Trata-se de uma questão importante nesse debate e que mereceria ser abordada”, observa Collaço.

 Uma das lacunas que chamou atenção de Brito foi em relação ao ODS 2 ou “fome zero”. “Nos textos analisados houve apenas uma breve menção sobre a questão de segurança alimentar e de que forma o alimento vai chegar ao consumidor final de forma sustentável”, lamenta o pesquisador.

Entretanto, essas lacunas funcionam como alerta, na opinião de Collaço. “Elas mostram o que deveria ser pesquisado em relação ao transporte rodoviário de cargas para que o setor alcance os 17 ODS até 2030. Além dos ODS 2, 7, 9 e 12, nosso artigo aponta que os estudos voltados ao setor também deveriam priorizar os ODS 3 (saúde e bem-estar), 11 (cidades e comunidades sustentáveis), 13 (ações contra o aquecimento global) e 17 (parcerias para metas)”, finaliza a pesquisadora.

RCGI

O Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) é um Centro de Pesquisa em Engenharia, criado em 2015, com financiamento da FAPESP e da Shell. As pesquisas do RCGI são focadas em inovações que possibilitem ao Brasil atingir os compromissos assumidos no Acordo de Paris, no âmbito das NDCs — Nationally Determined Contributions.

Os projetos de pesquisa — 19, no total — estão ancorados em cinco programas: NBS (Nature Based Solutions); CCU (Carbon Capture and Utilization); BECCS (Bioenergy with Carbon Capture and Storage); GHG (Greenhouse Gases) e Advocacy. Atualmente, o centro conta com cerca de 400 pesquisadores.

Bruno Castilho

bruno@cargasetransportes.com.br