27 de maio de 2024

CARGAS

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De Sumaré a Rondonópolis

Indústrias paulistas adotam solução multimodal e transporte por contêineres cresce 25% na região. Trens registram recordes na taxa de ocupação na rota, carregando diversos tipos de produtos e democratizando a ferrovia

O transporte de cargas pela Brado de São Paulo em direção ao Mato Grosso cresceu 25% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Cada vez mais os contêineres que circulam entre Sumaré (São Paulo) e Rondonópolis (Mato Grosso) em vagões double stack trafegam cheios, com produtos variados que abastecem o estado do Centro-Oeste.

O recorde no fluxo em direção a região foi em junho de 2022, com taxa de ocupação de 94%. Neste ano, março registrou o maior volume para o mês, com mais de mil contêineres carregados.

Defensivos agrícolas, bebidas, produtos de higiene e limpeza e materiais de construção foram as cargas que contribuíram para o aumento, com crescimento de até 115% no caso dos defensivos. A operação é proveniente das indústrias localizadas na Região Metropolitana de Campinas. São mais de 40 produtos atendidos na operação, democratizando o transporte de cargas pela ferrovia e abastecendo o mercado de consumo no interior do País.

De acordo com Rafael Seijas, gerente executivo de planejamento da Brado, essa solução logística é uma realidade recente e com potencial transformador na região. “Iniciamos em 2017 esse fluxo no mercado interno e no primeiro ano movimentamos 519 contêineres. Cinco anos depois, nosso resultado já ultrapassou a barreira dos 10 mil contêineres por ano em direção ao Mato Grosso”.

Segundo o gerente, a movimentação de cargas da região industrializada com destino ao interior do Brasil pela ferrovia representa uma quebra de paradigma na logística brasileira. “O fluxo habitual é desequilibrado: os ativos rodoviários e ferroviários vão até os portos cheios e retornam para o interior com grande ociosidade”, explica.

Quando essa rota operada pela Brado iniciou, em 2017, foi possibilitada devido ao crescente transporte de milho de venda interestadual, que sai de Rondonópolis com destino a Sumaré, abastecendo as indústrias da região.

“A carga do milho no mercado interno foi importante para nos dar regularidade e cadência. A partir do momento que conseguimos estabelecer o fluxo de ida de um trem a cada dois ou três dias, foi criado um terreno muito fértil para começarmos a prospectar os clientes do mercado interno a partir de Sumaré, o que basicamente é ocupar o fluxo de retorno”, diz Rafael. Seis anos depois, hoje os trens estão circulando praticamente cheios nos dois sentidos.

Mudanças

Atuar em um mercado tão distinto ao usual da Companhia, em que prevalece a movimentação de cargas para exportação, exigiu mudanças internas. A área de execução comercial cresceu e se organizou para um trabalho realizado no dia a dia.

“O mercado interno é gôndola, muito diferente da exportação. É preciso atuar diariamente com o cliente e conhecer toda a cadeia, ter a consciência de que se houver uma ruptura, o cliente final vai perder a gôndola no supermercado”, afirma Zuleica de Melo, gerente executiva de execução comercial e customer experience.

“Mesmo com pouco tempo de atuação, estamos criando um histórico para direcionar nossas estratégias de forma assertiva. É um mercado carente de boas soluções e o atendimento personalizado faz a diferença”, enaltece.

São dois modelos de operação nessa rota. Na venda direta (door-to-door), o produto sai da indústria e é entregue no cliente final, como um atacadão ou loja de materiais de construção. No modelo transferência de estoque, a carga fica armazenada em Rondonópolis até ser vendida.

As pontas rodoviárias também receberam atenção para otimizar esse novo fluxo. Os resultados já renderam novos projetos, como a substituição de parte dos caminhões porta-contêiner pelos sider – modelo com aberturas laterais – no carregamento nas fábricas de bebidas.

Embora a alteração exija uma transferência de carga do caminhão para o contêiner – cross-docking – adicional no terminal intermodal, o ganho de tempo na planta do cliente compensa. O mercado de bebidas foi um dos que mais cresceu em relação a 2022, dobrando o volume na comparação do primeiro trimestre, de 95 para 191 contêineres transportados.

Benefícios

Uma das vantagens para os clientes desse mercado é a possibilidade do estoque em trânsito. O atacadista ou distribuidor pode comprar uma carga na indústria e ainda não ter o espaço físico para receber esses produtos. Enquanto essa compra se desloca pela ferrovia, o estoque estará em trânsito.

Para o mercado de insumos agrícolas, o atrativo é o estoque avançado, que gera valor tanto para a indústria quanto para o produtor. A Brado conta com um armazém em Rondonópolis com os produtos disponíveis a pronta entrega. A indústria conta com espaço de armazenagem fora de sua planta e perto do maior mercado consumidor, facilitando o acesso do produtor conforme a sua demanda.

Outros ganhos são a segurança da carga e o processo sustentável da operação. A Brado oferece aos clientes uma calculadora de emissões de CO2: o Green Log. Na ferramenta online, é possível calcular as emissões evitadas com a adoção das soluções multimodais da empresa.

Em 2022, os clientes das operações de retorno do mercado interno deixaram de emitir quase 40 mil toneladas de CO2, equivalentes à emissão anual de 6,6 mil veículos. Seriam necessárias 220 mil árvores para absorver integralmente esse volume.

Bruno Castilho

bruno@cargasetransportes.com.br