Reforçando a segurança
Caminhão da Andreani,especialista em transporte de medicamentos
Com cargas milionárias, distribuidoras de medicamentos reforçam segurança com blindagem e inteligência artificial. Caminhões blindados, carros-fortes, escolta armada e o uso de inteligência artificial já fazem parte da rotina logística de empresas responsáveis pelo transporte de medicamentos sensíveis e de alto custo
O avanço dos roubos de cargas de medicamentos de alto valor têm levado distribuidoras do setor a reforçar, de forma significativa, seus sistemas de segurança. Caminhões blindados, carros-fortes, escolta armada e o uso de inteligência artificial já fazem parte da rotina logística de empresas responsáveis pelo transporte de medicamentos sensíveis e de alto custo, como os utilizados no tratamento de câncer, doenças raras e enfermidades crônicas.
De acordo com um levantamento da ABRADIMEX (Associação Brasileira de Distribuidores de Medicamentos Especializados, Excepcionais e Hospitalares), cerca de metade das transportadoras do segmento ampliou em até 20% os investimentos em segurança ao longo de 2024. Embora os medicamentos representem apenas cerca de 2% do total de cargas roubadas no país, o alto valor agregado transforma esse tipo de mercadoria em alvo preferencial de quadrilhas especializadas.
No ano passado, o volume de medicamentos apreendidos em operações contra roubo de cargas foi estimado em R$ 283 milhões. Ao todo, o Brasil registrou 18.038 ocorrências desse tipo em 2024, número 5,4% superior ao do ano anterior. Segundo Paulo Maia, presidente executivo da ABRADIMEX, os produtos mais visados são os destinados a tratamentos oncológicos, doenças raras e pacientes em estado grave. “Dependendo do medicamento, uma única caixa pode custar entre R$ 10 mil e R$ 30 mil. Uma carga completa facilmente ultrapassa R$ 2 milhões”, afirma.
Dados de segurança pública de 2025 indicam que os medicamentos roubados em cadeia logística ou em farmácias e drogarias se destacam por itens de alto valor, de alta demanda e de difícil rastreamento ou revenda, o que inclui aqueles para emagrecimento, TDAH, oncológicos, imunoterápicos, dermocosméticos e itens de beleza.
Na Andreani, especializada em logística de medicamentos, o envio desse tipo de carga exige veículos com laterais blindadas e, em muitos casos, escolta armada. “Em algumas rotas, a blindagem sozinha não resolve. É preciso adotar um conjunto de medidas para reduzir o risco”, explica Djalma Campos, diretor de operações logísticas da empresa.
A frota conta com caminhões que possuem mais de um nível de blindagem, projetados para resistir tanto a perfurações quanto a tentativas de corte no baú. As portas têm travas reforçadas e o design dos veículos prioriza apenas a abertura traseira, estratégia pensada para dificultar invasões laterais durante o trajeto.
Além da proteção física, a tecnologia ganhou papel central nas estratégias de segurança. Sistemas de rastreamento com monitoramento 24 horas, câmeras internas, bloqueadores de sinal e ferramentas de inteligência artificial são utilizados para identificar áreas de risco, analisar padrões de atuação criminosa e definir rotas mais seguras.
Para Maia, nenhuma dessas medidas é eficaz isoladamente. “Um caminhão blindado, sem escolta e sem tecnologia embarcada, tem efeito limitado. O que realmente protege a carga é a combinação dessas ações, embora o investimento seja elevado”, diz. A adaptação de um único caminhão pode custar entre R$ 150 mil e R$ 180 mil, valor que ainda se soma ao aumento do seguro e ao encarecimento do frete em regiões consideradas críticas.
O relatório da ABRADIMEX mostra que Rio de Janeiro e São Paulo concentram cerca de 70% dos roubos de cargas de medicamentos no país. Em áreas de maior risco, como a Avenida Brasil, no Rio, o valor do frete chegou a subir entre 5% e 10%. A maioria dos crimes ocorre em dias úteis, especialmente às terças e quartas-feiras, durante os períodos da manhã e da tarde.
Diante desse cenário, as empresas passaram a diversificar horários de entrega e revisar constantemente suas rotas. “Essas informações ajudam a antecipar riscos e reduzir a exposição das cargas”, explica Maia.
Dados do setor indicam que os roubos de cargas seguem fortemente concentrados em poucos estados e as forças de segurança estaduais também têm intensificado ações contra quadrilhas especializadas nesse tipo de crime. O Rio de Janeiro lidera as ocorrências, respondendo por 40,9% dos registros, seguido por São Paulo, com 36,4%. Na sequência aparecem Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná, cada um com cerca de 4,5% dos casos.
A Polícia Civil do Rio de Janeiro aponta redução nos roubos após o avanço da Operação Torniquete, iniciada em setembro de 2024. Já em São Paulo e Minas Gerais, operações integradas e o uso de inteligência policial vêm sendo reforçados para combater o furto e a receptação de medicamentos.
O padrão dos crimes também se repete nas cidades e ao longo da semana. As ocorrências são maiores nas quartas-feiras, concentrando 34% de roubo de cargas, seguidas pelas terças-feiras, com 27%, e pelas sextas-feiras, que respondem por 16% dos casos. A previsibilidade desses dados tem levado as empresas a revisar rotas, diversificar horários de entrega e reforçar protocolos de segurança justamente nos períodos considerados mais críticos.
A preocupação vai além do prejuízo financeiro. Cada carga desviada representa também o risco de desabastecimento de hospitais, clínicas e farmácias, com impacto direto sobre pacientes que dependem desses medicamentos para manter seus tratamentos. Por isso, mesmo diante do aumento dos custos operacionais, as empresas seguem investindo para proteger um elo essencial da cadeia da saúde no Brasil.
Bruno Castilho
bruno@cargasetransportes.com.br
